- Señor.
- ¿ Qué?
- Ahí está el público.
- Que pase.

A ação é o cerne do drama: os quatro cavaleiros que entram e tocam suas trombetas, os ladrões que surrupiam poucas moedas. O diretor troca a peruca loira por cabelos castanhos. Tudo, no teatro, é texto. As imagens são construídas por palavras e letras soltas, deixas exatas. Todos os gestos são exagerados como os advérbios. Todos os figurinos são adjetivos polissilábicos.

- Pero nunca dejarán de ser Romeo y Julieta.
- Y enamorados. ¿Usted cree que estaban enamorados?

Quase não há peças que não sejam longas poesias na obra de Federico García Lorca. O drama é a execução das impossibilidades, das tragédias, da melancolia dos versos – só o movimento, aquele que nos é repreendido capturar, é capaz de dar vazão a razão melodramática do autor espanhol. Digo razão para satisfazer Heidegger: a felicidade é Read the rest of this entry »

Publicado inicialmente em Agosto/2009, no jornal experimental do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Espírito Santo. Versão revisada.

Pedro Juan Gutiérrez

O barulho dos saltos nos paralelepípedos das ruas cadenciava o gingado das calças jeans de Havana velha. É inebriante: as luzes avermelhadas, as paredes coloridas dos edifícios gêmeos, a pele brilhosa e perfumada das horistas. Há quem se preocupe – outros não. “Sexo é um intercâmbio de líquidos, de fluidos, de saliva, hálitos e cheiros fortes, urina, sêmen, merda, suor, micróbios e bactérias. Ou não é. Se é só ternura e espiritualidade etérea, se reduz a uma paródia estéril do que poderia ser. Nada.”. Essa intensidade é marca necessária para o escritor Pedro Juan Gutiérrez e sua proposta de arte – irritada, grossa, voraz, capaz de nos colocar em confronto com o “verdadeiro” mundo, sem as máscaras teatrais, sem o clown shakespeariano.

Gutiérrez propõe uma nova visão canônica para a América Latina – longe do domínio europeu e de valores burgueses como a limpeza, a assepsia moral doentia que contesta em Trilogia de Havana Suja (1998). Seu retrato de uma cidade imunda, em crise, lhe parece melhor do que qualquer outra perspectiva traçada pelas sociedades ocidentais. É tudo o que foi rejeitado por décadas e séculos na Europa que o interessa: a miscigenação, os sons da África, os índios caribenhos. Mais que isso: o escritor também se estende sobre o jornalismo, sua profissão por quase 26 anos: “Fui enxotado do jornalismo porque fui ficando cada vez mais visceral. E as pessoas viscerais não são muito apreciadas. Se você tiver idéias próprias, precisa entender que Read the rest of this entry »