Uma leitura benjaminiana de A Invenção de Morel: o corpo como obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica

dezembro 28, 2009

O Ano Passado em Marienbad (1964), de Alain Resnais, inspirado em A Invenção de Morel

O Ano Passado em Marienbad (1964), de Alain Resnais, inspirado em A Invenção de Morel

“Tive uma surpresa: depois de muito trabalho, ao congregar esses dados harmonicamente, encontrei pessoas reconstruídas, que desapareciam se eu desconectava o aparelho projeto, viviam apenas os momentos passados em que se gravara a cena e, ao terminá-los, voltavam a repeti-los, como se fossem partes de um disco ou de um filme que, uma vez terminado, tornasse a começar, mas que ninguém poderia distinguir das pessoas vivas (parecem circular outro mundo, fortuitamente abordados pelo nosso).”

[BIOY CASARES, Adolfo. A Invenção de Morel. São Paulo: Cosac Naify, 2006]

Um fugitivo, condenado à prisão perpétua, rema de Caracas a uma ilha abandonada no Pacífico. Não teme que o procurem: conta-se que há uma peste endêmica, capaz de erradicar – em poucos dias – um homem saudável. Caem as unhas e o cabelo. A pele adquire textura emborrachada, branqueia-se. Os olhos perdem o viço. Não importa: melhor morrer em liberdade do que apodrecer em algum calabouço. Assinala que é Ellice, um pequeno arquipélago; um editor desconfiado, entretanto, forja algumas notas sobre o manuscrito. Não acredita na hipótese.

As marés tomam a ilha: dividem-se em lunares e metereológicas. Fazem funcionar uma espécie de equipamento – a tal invenção mencionada no título da obra – que reproduz figuras humanas. O condenado pouco sabe; apaixona-se, também, por um desses fantasmas. Chama-se Faustine e pouco lhe dá atenção. Como pode, se é mera reprodução? Desfeitas as confusões, prossegue a uma edição curiosa. A Invenção de Morel é quase uma nota de rodapé no mercado editorial brasileiro. Uma edição pequena, com uma citação de Borges ao fundo e papel pólen. Talvez, assim, chame a atenção. Uma pena: deveriam por, de forma ainda mais garrafal, o que Borges diz em um breve prefácio sobre a obra: “Discuti com o autor os pormenores da trama e a reli; não me parece uma imprecisão ou uma hipérbole qualificá-la de perfeita.”

É uma espécie de romance policial – como são as obras constantemente traduzidas por Bioy – sem um item principal Leia o resto deste post »


Música para desaparecer: para se ouvir num volume mínimo

dezembro 25, 2009

Não se procede ao infinito; a tradição árabe, para tanto, credita a sustentação do mundo a um anjo.  Deste, um penhasco de rubi. Às jóias, um touro de bronze, com quatro mil olhos, quatro mil bocas, quatro mil línguas, quatro mil ventas, quatro mil pernas e quatro mil orelhas. É o Kujata – se apóia no Bahamut. Por sua vez, em água. A água numa escuridão profunda. A ciência humana não ultrapassa esse ponto. Confidencia-se a existência de Deus por trás da neblina: há o argumento que toda causa exige uma causa anterior e se proclama uma necessidade de uma causa primeira. Há, muito forte nessa cosmologia, um desejo de perder-se por entre as explicações, envolver-se por entre um jogo constante de realidades distintas – entre fato e ficção – moldando um mosaico muito rente entre o que lhe foi contado e o que contam. Perdem-se, também, os que resolvem atentar para a quarta faixa de Kid A. Conta, Thom Yorke, que é Leia o resto deste post »


O Original de Laura: os manuscritos e os prefácios de Vladimir Nabokov

dezembro 19, 2009

Tenho O Original de Laura em mãos. Acredito que seja choque de uma ou outra vontade não publicá-lo; se fizeram, porém, procede-se assim mesmo à leitura. É, ainda, muito próximo a tudo o que Vladimir Nabokov já escreveu. As idéias estão em segundo plano; compreende-se primeiro o estilo, um floreio digno de um ou outro discurso policial. Em seguida: a estrutura. De fato, análoga ao argentino Jorge Luis Borges. Há um quê metalingüístico em Laura que ultrapassa, muitas vezes, o próprio jogo hermético construído em Fogo Pálido. Parece que, como se fosse uma fundação arquitetônica, a própria inconclusividade da obra deixa Leia o resto deste post »


O palco em segredos miúdos: melancolia e tolerância em O Público, de Federico García Lorca

novembro 4, 2009

- Señor.
- ¿ Qué?
- Ahí está el público.
- Que pase.

A ação é o cerne do drama: os quatro cavaleiros que entram e tocam suas trombetas, os ladrões que surrupiam poucas moedas. O diretor troca a peruca loira por cabelos castanhos. Tudo, no teatro, é texto. As imagens são construídas por palavras e letras soltas, deixas exatas. Todos os gestos são exagerados como os advérbios. Todos os figurinos são adjetivos polissilábicos.

- Pero nunca dejarán de ser Romeo y Julieta.
- Y enamorados. ¿Usted cree que estaban enamorados?

Quase não há peças que não sejam longas poesias na obra de Federico García Lorca. O drama é a execução das impossibilidades, das tragédias, da melancolia dos versos – só o movimento, aquele que nos é repreendido capturar, é capaz de dar vazão a razão melodramática do autor espanhol. Digo razão para satisfazer Heidegger: a felicidade é Leia o resto deste post »