Música para desaparecer: para se ouvir num volume mínimo

Não se procede ao infinito; a tradição árabe, para tanto, credita a sustentação do mundo a um anjo.  Deste, um penhasco de rubi. Às jóias, um touro de bronze, com quatro mil olhos, quatro mil bocas, quatro mil línguas, quatro mil ventas, quatro mil pernas e quatro mil orelhas. É o Kujata – se apóia no Bahamut. Por sua vez, em água. A água numa escuridão profunda. A ciência humana não ultrapassa esse ponto. Confidencia-se a existência de Deus por trás da neblina: há o argumento que toda causa exige uma causa anterior e se proclama uma necessidade de uma causa primeira. Há, muito forte nessa cosmologia, um desejo de perder-se por entre as explicações, envolver-se por entre um jogo constante de realidades distintas – entre fato e ficção – moldando um mosaico muito rente entre o que lhe foi contado e o que contam. Perdem-se, também, os que resolvem atentar para a quarta faixa de Kid A. Conta, Thom Yorke, que é a melhor composição do Radiohead. Faz-se num vai e vem de informações desencaixadas e perdidas, da necessidade de fazer-se flutuar por um som. Mover-se por indecisões, incertezas do que ocorre.

A voz soma-se a tradição medieval: incorpora-se com os instrumentos, se transformando em um deles. Faz da letra um detalhe, a condução aos gritos e sussurros desesperados – não se facilitando ao contrário. O som que provoca texturas e, além, a necessidade de desaparecer. “I’m not here / this isn’t happening”. Lê-se num trecho quase inicial de O Guia do Mochileiro das Galáxias que qualquer prova da existência de Deus é a prova de sua inexistência. Ao mesmo tempo, é assim How to Disappear Completely and Never Been Found. E em Idioteque ou Everything In Its Right Place. A música não se tornou instrumento de niilismo humano apenas em 2000. Precisa-se, aqui, proceder – talvez ao infinito. Música para desaparecer, talvez, lida como uma música ambiente – toada no sentido de provocar não reações lógicas, despertar argumentos e histórias, mas de compor sensações e, talvez, emoções. Deixa-se levar. Retomar um paradoxo: a melancolia – questionadora e constante. Aquilo que é apressado e frenético em baixa fidelidade. Para se ouvir num volume mínimo.

Mil novecentos e setenta e oito. Incursões inaugurais do que se chamou de música ambiente. Kid A talvez não existisse, ou não teria sustento – como do Bahamut ao Kujata – sem Ambient 1: Music For Airports. Da primeira audição, não se toma coragem de girar o botão e aumentar o volume das caixas de som. Ao contrário, pretende-se abaixá-lo ao máximo, esperar o próximo toque, suspender a respiração durante uma ou outra pausa. Dezessete minutos e vinte segundos forjados por Brian Eno, seguidos de três fantasias sobre um desconhecido Pachbell. Autor clássico, proveniente do Barroco, fornece o sustento de Music For Airports com o seu Cânone em Ré Maior dado a uma releitura. Repetição para três violinos e um violoncelo contínuo. 1-1, 1-2. 2-1. 2-2. Se os árabes também nos contam que a Terra tem suas fundações na água, por sua vez, no mesmo penhasco de rubi – e no touro; e Kujata, num leito de areia – estendendo-se, por baixo, o Bahamut, após um vento sufocante e por fim uma neblina. Um jogo de máscaras – barroco – em que a única função é desaparecer. Por uma imagem borrada, uma impressão. Por um som disforme.

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