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Do beijo e do seu acaso: o reencontro e suas músicas em Wong Kar-Wai

Maggie Cheung em Amor à Flor da Pele (2000)

Da primeira vez que eu vi Wong Kar-Wai: estava por trás de uma câmera, um bolero de Nat King Cole. Na verdade, uma pequena música instrumental que aumentava o desconforto e a sensação de perda – uma mulher, em seu vestido e suas padronagens sessentistas , descia uma pequena escada de um concreto corroído em busca de um pouco de macarrão. Encontrava-se com o vizinho; olhavam-se furtivamente e se esqueciam num minuto. A pequena cena de Amor à Flor da Pele (2000), exibida numa sala de aula inundada de pouca luz e muitas palavras trocadas, me fez correr – logo depois – em busca de uma cópia. Não sabia sequer a pronúncia correta; pedi num desalinho, numa pressa necessária à exibição apertada entre uma aula e outra. Seguiu-se a uma série de outros sete filmes. Obras completas, diriam se fosse material da Literatura; convenceram-me logo depois que Kar-Wai não filma, mas escreve com a sua câmera. Guardem segredo: penso até hoje, quando escrevo, que o meu maior desejo é que minhas histórias fossem uma fábula de amor de Wong Kar-Wai. Guardem direito esse segredo. Não revelem a ninguém, não me deixem dar o braço a torcer.

De Nat King Cole para The Mamas And Papas. A primeira reação ao ouvir California Dreaming em Amores Expressos (1994) foi uma risada; creio que foi de incompreensão imediata, de como aquele realizador, perdido numa ilha no meio da Ásia, queria me convencer que (mais…)


Hantent les nuits de Duvalier: Haïti, Arcade Fire e o barroco

Win Butler e Régine Chassagner

Às vezes, penso que meu winamp pode dizer muito. Mais do que os sites de notícia. É, de todo, verdade; li, não lembro bem onde, um depoimento em que William Faulkner ressalta a música como a arte mais expressiva do ser humano e impossibilidade do escritor em se expressar tanto ou tão perfeitamente quanto ela o faz. De todo, o faz. Mesmo que a quantidade (por vezes absurda) de caracteres que este ou outro post possam ter, jamais teriam a amplitude do que quatro ou cinco minutos de música podem dizer. É assustador. Entro no meu computador, vou até a pasta de músicas. Seleciono: Arcade Fire. Há dois álbuns a minha disposição, Funeral e Neon Bible, precedidos dos respectivos anos de lançamento. Dou dois cliques sobre a primeira opção. Oitava faixa.

Creio que Haïti possa dizer muito mais do que eu possa dissertar. É claro, se tem a tentativa e ela segue todos esses 930 caracteres de desculpas primordiais. Um pouco mais novo, mas nem tanto, pude ter acesso a um livro que se encontra entre meus preferidos. Logo depois descobri que seu escritor era (mais…)


Música para desaparecer: para se ouvir num volume mínimo

Não se procede ao infinito; a tradição árabe, para tanto, credita a sustentação do mundo a um anjo.  Deste, um penhasco de rubi. Às jóias, um touro de bronze, com quatro mil olhos, quatro mil bocas, quatro mil línguas, quatro mil ventas, quatro mil pernas e quatro mil orelhas. É o Kujata – se apóia no Bahamut. Por sua vez, em água. A água numa escuridão profunda. A ciência humana não ultrapassa esse ponto. Confidencia-se a existência de Deus por trás da neblina: há o argumento que toda causa exige uma causa anterior e se proclama uma necessidade de uma causa primeira. Há, muito forte nessa cosmologia, um desejo de perder-se por entre as explicações, envolver-se por entre um jogo constante de realidades distintas – entre fato e ficção – moldando um mosaico muito rente entre o que lhe foi contado e o que contam. Perdem-se, também, os que resolvem atentar para a quarta faixa de Kid A. Conta, Thom Yorke, que é (mais…)