Hantent les nuits de Duvalier: Haïti, Arcade Fire e o barroco

Win Butler e Régine Chassagner

Às vezes, penso que meu winamp pode dizer muito. Mais do que os sites de notícia. É, de todo, verdade; li, não lembro bem onde, um depoimento em que William Faulkner ressalta a música como a arte mais expressiva do ser humano e impossibilidade do escritor em se expressar tanto ou tão perfeitamente quanto ela o faz. De todo, o faz. Mesmo que a quantidade (por vezes absurda) de caracteres que este ou outro post possam ter, jamais teriam a amplitude do que quatro ou cinco minutos de música podem dizer. É assustador. Entro no meu computador, vou até a pasta de músicas. Seleciono: Arcade Fire. Há dois álbuns a minha disposição, Funeral e Neon Bible, precedidos dos respectivos anos de lançamento. Dou dois cliques sobre a primeira opção. Oitava faixa.

Creio que Haïti possa dizer muito mais do que eu possa dissertar. É claro, se tem a tentativa e ela segue todos esses 930 caracteres de desculpas primordiais. Um pouco mais novo, mas nem tanto, pude ter acesso a um livro que se encontra entre meus preferidos. Logo depois descobri que seu escritor era cubano e – talvez – daí tenha vindo toda a paixão pela literatura em espanhol. De todo, Alejo Carpentier era arquiteto, mas dedicado à música, à literatura e ao jornalismo. Paixões em comuns que produzem certa simpatia inicial, mas as páginas de Concierto Barroco podem levar a muito mais; a uma Europa em que Montezuma e Vivaldi se cruzam com certa facilidade num carnaval veneziano, na proposta do barroco como principal e mais genuína forma de arte da América Latina. É, creio que o Haiti não fale espanhol; a língua francesa, ao contrário, é a oficial do país. Mas de todo, as mesmas relações, os mesmos conceitos amplamente estudados numa iniciação científica repleta de citações a Ángel Rama.

De todo, o espanhol (e o francês) que as ilhas caribenhas, as penínsulas e os continentes americanos receberam não foi o mesmo do Quixote. Saiu da língua de Tomás de Torquemada, chefe da Santa Inquisição, uma espécie de tirano sagrado ao qual se dá a opressão por direito, poder ou destinação divina. É essa a mesma língua que foi dada aos colonizadores, sacralizada, de difícil acesso – presa num forte hermetismo discursivo, num desejo de esgotar-se por completo. É o jogo formal mais complexo, mais difícil, escondendo o precioso tesouro da Europa, algo que damos o nome contemporâneo de educação ou refinamento, dos pobres mestiços que ali surgiam, que não pertenciam àquela terra e nem a nenhuma outra. Uma pequena parcela instruída assumia cada vez mais cargos e outras instâncias, centralizando o poder dentro de um jogo discursivo, daqueles que tem ou não a chave da compreensão do discurso. O Barroco é marcado pelo seu esplendor, é claro; dura quase três séculos, tem uma radicalização que damos o nome de Rococó. Não império eterno senão o das quedas, derrocadas e dos pontos finais. Os letrados, principais beneficiados pela colonização discursiva, tornam-se zumbis; repetem fórmulas estrangeiras, batizam-se com nomes (Realismo, Naturalismo, Romantismo)  para fácil apreensão das crianças com a popularização dos colégios e dos livros didáticos de literatura.

O Barroco se torna paradigma de latino-americanidade. Os príncipes e cortesãos do teatro barroco fundam linhagens de melancólicos por cada rua, viela e paralelepípedo; poetas ultra-românticos, dândis decadentistas, aristocratas sem poder. E nisso tudo, é claro, o Haiti e o seu terremoto e os fotógrafos. Há na internet, basta procurar, a imagem de uma catedral em ruínas; para as lentes dos fotógrafos, sobretudo americanos, ingleses e franceses, representam a destruição maior, da própria fé e esperança. Contudo, esses olhares repletos de leads e de pretensas objetividades pouco podem dizer da visão do tal povo desolado; a queda da catedral é o símbolo da decadência de um império colonial, historicamente extinto, mas ainda forte, preciso e ameaçador; um império discursivo, de dominações de linguagens e parâmetros de línguas cultas e variações, pobres variações, todas pobretonas, interioranas, sem a mínima condição para figura nos dicionários. Da Igreja que auxiliou na sacralização de um discurso, da hierarquização e da concentração de poder; de um domínio sem prazo final. De todo, surge o barroco como uma possibilidade de confronto diante da catástrofe definitiva da modernidade e falência de seus ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. O Barroco é a necessidade de imergir em si e buscar uma identidade na melancolia, da aceitação da tragédia, ou da nostalgia, a espera pela volta de dias melhores. Esse, talvez, seja o ponto central da questão e que os jornais pouco falaram: aceitar a tragédia, a culpa e os remorsos do império colonial ou oferecer ajuda para reconstruí-lo e pô-lo de volta em seu esplendor?

Daí que surge o fato mais interessante. Da mesma América, mas anglo-saxônica, surge uma banda formada em torno de um casal. Ela, Régine Chassagne. Ele, Win Bluter. Da família dela: veio do Haiti para o Canadá. Fixaram-se em Montreal. Daí para o Arcade Fire. Música pop com elementos da ópera e da música erudita, um estilo que viria a ser classificado como Baroque Pop ou, em tradução literal, Pop Barroco. A inversão de valores é intensamente interessante, a tradição européia que se rende a uma estética quase própria das Américas, a música erudita que se rende a música popular, tão intensa nas rádios dos subúrbios pobres.  A transculturação proposta por Ángel Rama que chega acima do trópico de Câncer.

E a possibilidade de dizer, em quatro minutos e seis segundos todos esses 5.557 caracteres.

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Uma resposta

  1. brunellabrunello

    Temos que erguer as mãos para os céus e agradecer pela capacidade de ouvir.
    Mas, também, pela capacidade de enxergar.

    Assim como a música, a imagem expressa coisas que as palavras são incapazes de dizer.

    Tudo isso é multi-sensorial. A música do Arcade Fire tem cor própria. E não é uma cor só. É uma multi-cor. Uma cor todas as cores. Como as imagens do Haiti e como a transculturação que avança pelos trópicos.

    Lindo, Damn!

    fevereiro 28, 2010 às 10:22 pm

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