O palco em segredos miúdos: melancolia e tolerância em O Público, de Federico García Lorca

– Señor.
– ¿ Qué?
– Ahí está el público.
– Que pase.

A ação é o cerne do drama: os quatro cavaleiros que entram e tocam suas trombetas, os ladrões que surrupiam poucas moedas. O diretor troca a peruca loira por cabelos castanhos. Tudo, no teatro, é texto. As imagens são construídas por palavras e letras soltas, deixas exatas. Todos os gestos são exagerados como os advérbios. Todos os figurinos são adjetivos polissilábicos.

– Pero nunca dejarán de ser Romeo y Julieta.
– Y enamorados. ¿Usted cree que estaban enamorados?

Quase não há peças que não sejam longas poesias na obra de Federico García Lorca. O drama é a execução das impossibilidades, das tragédias, da melancolia dos versos – só o movimento, aquele que nos é repreendido capturar, é capaz de dar vazão a razão melodramática do autor espanhol. Digo razão para satisfazer Heidegger: a felicidade é superficial, é satisfação. Esquecer de refletir é felicidade. A melancolia é o pensar eterno, a reflexão interminável. Em Lorca, o questionamento da identidade sexual, do não lugar numa sociedade ditatorial ou, ainda, sobre os crimes cometidos. Dizem que não há crime se não há testemunha.

Não há testemunha sem o público.

– Ciego, porque no eres hombre. Yo si soy um hombre. Um hombre, tan hombre que me desmayo cuando se despiertan los cazadores. Um hombre, tan hombre, que siento un dolor agudo em los diente cuando alguien quiebra um tallo, por diminuto que sea. Um gigante. Um gigante, tan gigante, que puedo bordar uma rosa em la uña de um niño recién nacido.

A pior das testemunhas e, conseqüentemente, dos públicos é aquele que senta do outro lado do divã. Diz que a melancolia se dá pela insatisfação do ego. Auto-acusação. La Figura de Cascambeles que se condena por toda a peça, o gigante que borda uma rosa na unha de um recém-nascido. Ainda completa com um delírio de inferioridade. Põe o interlocutor diante de Tanatos, o deus da morte, o arquétipo da pulsão pelo fim da vida. Não há muito tempo, a mesma voz dizia que a homossexualidade era desvio. Errou. É subversão.

Sobretudo, de clichês psicanalíticos. Ethos é a pulsão do sexo, da vida. Engano, pode muito bem ser a da morte. Consumir-se tem na sua semântica essa dualidade, o espírito e a razão que tanto balbucia o filósofo nazista. Em García Lorca, a lógica do sexo que mantém vivo é desconstruída: é ele que traz os personagens para mais próximos da morte, um êxtase final. É quando se traveste de Julieta, quando se mortificam as aparências a favor de uma essência (grund) – a redenção se dá pela aniquilação. É preciso que um dos atores mortifique-se como homem e surja com outra identidade para a consumação (ou não) da tragédia, para que o vilarejo se revolte diante da paixão de dois homens e decidam acabar com eles ali mesmo, no palco. Picadeiro que não se vê: tudo é velado. É o objeto perdido. Para Kierkegaard, a ansiedade e a melancolia são opostas ao medo: ver promover terror e horror, lógica do luto e da nostalgia. O Público promove a distopia, a busca por um objeto de desejo não identificado, invisível e intangível. Lorca põe o expectador no lugar dos protagonistas: é obrigado a se antecipar, desejar a ação que nunca se poderá encontrar ou possuir. É uma lógica dos espelhos entre personagens e transeuntes: não há solução para o drama a não ser a sua irresolução. É preciso ser Narciso: olhar para dentro de si, a imagem no lago, prender-se a uma não consumação do drama, da ação e imergir nela completamente.

A melancolia é uma forma de resistência e tolerância: um questionar-se sem fim para não dar espaço para a dúvida alheia, proteger-se por estar eternamente em cheque. É impossibilitar todos os dramas, destronar todas as possibilidades. É a música que desaparece, a surdez pelo sussurro constante.

(El Prestidigitador agita com viveza el abanico por el aire. Em la escena empiezan a caer copos de nieve.)

Telón lento.

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Uma resposta

  1. Eruditérrimo.

    dezembro 12, 2009 às 9:24 pm

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