Ervas Daninhas: até que o senhor sabe o suficiente sobre o ciúme e o desejo

É claro, uma erva daninha não é, necessariamente, algo de tão ruim e perigoso. Indicam espontaneidade, um solo fértil, talvez, e até mesmo uma possibilidade de encontro e de coexistência. O que se pensa delas: se esgueiram pelos cantos dos paralelepípedos e atrapalham de um pouco em tudo, da visão da rua à aderência dos pneus do carro. É claro, um pouco verdade, mas nem tanto. É o que se diz do ciúme: corrosivo, destruidor. Não é, no entanto, cúmplice do desejo? Tem-se por medida, já que sentimentos não podem ser quilometrados por inexistência de trena suficientemente grande, nem pesado por anorexia feminina, a seguinte frase de Proust: “Tem se por inocente desejar e atroz que o outro deseje”.

No entanto, não é o nome de Proust que é citado durante os 104 minutos de Ervas Daninhas (Les Herbes Folles, 2009), do célebre diretor francês Alain Resnais – é o de Gustave Flaubert. Aparece como do nada, como uma cartela de filme mudo. Não há uma ordem formal nas cenas de Resnais; elas perpassam a tela como os desejos passam pela mente humana, numa ordem fragmentada, como são as ações impulsivas das personagens. Contudo, a vontade é tirânica e passageira, mas a reflexão parece eterna. Como a construção de uma catedral gótica, cada ação possui um espelho, uma simetria que não se deseja perfeita, não deseja ser um simulacro da realidade. De certa forma, cada cena, personagem e fala tem seu par, delicadamente refletido por um espelho torto (não se sabe se côncavo ou convexo).

Mas o que se reflete? A história de uma mulher, com cabelos vermelhos e revoltos, que – assaltada – tem sua carteira encontrada por um senhor de meia-idade. Ele deseja encontrá-la. Ela não quer. Muda de idéia e o procura. Quem atende ao telefone: a mulher dele. Entretanto, um ponto quase sempre passa despercebido, logo se encanta com as cores e com uma poesia forte que o diretor imprime ao filme: há um narrador. Não se sabe quem é, mas parece que está a relembrar alguma coisa, alguma história: vai contando do que lembra, da forma que lembra, enganado pela memória ou enganando-a. Num momento do filme, o andamento da história é pausado para contar como a personagem ruiva recuperou a carteira, algo indiferente e completamente esperado, previsível até. Mas a tentativa de ser mais inteligente do que Resnais sempre nos torna infinitamente mais cegos; há que prestar atenção em dois temas que regem o filme e a obra dos escritores citados: o tempo e a memória.

Não se controla o tempo, no máximo tem-se o controle sobre a memória. De certa forma, ela ainda não é tempo, ela não flui, não é uma convenção, não pode ser medida e muito menos pode ter um parâmetro coletivo. O filme é contado da perspectiva dessa memória rápida, quase voraz como Proust imprime com principal momento de sua narrativa e Flaubert como solução para o seu mais célebre romance; dessas lembranças se extraem pontos cada vez mais voláteis, cada vez mais momentâneos. Cada frase reprimida, mas desejada, é dita. Cada ação é feita sem pausa para pensar nas conseqüências. Disso tudo, os dois sentimentos mais velozes do comportamento humano: ciúme e desejo. Dão e passam num piscar de olhos, mas são irresistíveis. Cada um desses sentimentos se esgueira pelos personagens (exceto a mulher do senhor, a qual parece não ter desejos ou ciúmes próprios), exatamente como as plantas que dão nome ao filme se esgueiram pelos paralelepípedos.

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2 Respostas

  1. brunellabrunello

    Que lindo!
    vou correr para assistir.
    Você ainda vai escrever para a Bravo!
    beijos

    fevereiro 25, 2010 às 1:03 pm

  2. Segundo post abordando o cinema de Resnais, parabéns.
    Escrita elegante, mas confesso que queria ler mais sobre.

    abs,
    Lucas

    março 2, 2010 às 2:58 pm

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