Uma leitura benjaminiana de A Invenção de Morel: o corpo como obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica

O Ano Passado em Marienbad (1964), de Alain Resnais, inspirado em A Invenção de Morel

O Ano Passado em Marienbad (1964), de Alain Resnais, inspirado em A Invenção de Morel

“Tive uma surpresa: depois de muito trabalho, ao congregar esses dados harmonicamente, encontrei pessoas reconstruídas, que desapareciam se eu desconectava o aparelho projeto, viviam apenas os momentos passados em que se gravara a cena e, ao terminá-los, voltavam a repeti-los, como se fossem partes de um disco ou de um filme que, uma vez terminado, tornasse a começar, mas que ninguém poderia distinguir das pessoas vivas (parecem circular outro mundo, fortuitamente abordados pelo nosso).”

[BIOY CASARES, Adolfo. A Invenção de Morel. São Paulo: Cosac Naify, 2006]

Um fugitivo, condenado à prisão perpétua, rema de Caracas a uma ilha abandonada no Pacífico. Não teme que o procurem: conta-se que há uma peste endêmica, capaz de erradicar – em poucos dias – um homem saudável. Caem as unhas e o cabelo. A pele adquire textura emborrachada, branqueia-se. Os olhos perdem o viço. Não importa: melhor morrer em liberdade do que apodrecer em algum calabouço. Assinala que é Ellice, um pequeno arquipélago; um editor desconfiado, entretanto, forja algumas notas sobre o manuscrito. Não acredita na hipótese.

As marés tomam a ilha: dividem-se em lunares e metereológicas. Fazem funcionar uma espécie de equipamento – a tal invenção mencionada no título da obra – que reproduz figuras humanas. O condenado pouco sabe; apaixona-se, também, por um desses fantasmas. Chama-se Faustine e pouco lhe dá atenção. Como pode, se é mera reprodução? Desfeitas as confusões, prossegue a uma edição curiosa. A Invenção de Morel é quase uma nota de rodapé no mercado editorial brasileiro. Uma edição pequena, com uma citação de Borges ao fundo e papel pólen. Talvez, assim, chame a atenção. Uma pena: deveriam por, de forma ainda mais garrafal, o que Borges diz em um breve prefácio sobre a obra: “Discuti com o autor os pormenores da trama e a reli; não me parece uma imprecisão ou uma hipérbole qualificá-la de perfeita.”

É uma espécie de romance policial – como são as obras constantemente traduzidas por Bioy – sem um item principal: a solução. São sedutoras, no entanto, as palavras finais do protagonista, ao pedir auxílio a um possível inventor-leitor, que congregue os corpos e as imagens de volta, em ato piedoso. Pouco se sabe, também, sobre o autor: dizem, acima de tudo, que é um amigo de Borges. Uma espécie de monossílabo da literatura em língua espanhola. Classifica, da mesma forma, Bioy a Deus: “um monossílabo de extraordinário sucesso”. É ateu: não crê que o homem venha do barro, uma obra única de um criador. Se fosse, assim, tão único e perfeito, o homem seria eterno. A obra do argentino permite uma leitura bastante pessimista do famoso artigo de Benjamin, A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica; não compartilha uma visão da própria literatura, talvez confinada a própria necessidade de múltiplos exemplares. Convém, entretanto, ao elitismo: o acesso é restrito a uma classe alfabetizada, ainda menor na América Latina. A obra de arte a que Bioy se refere é ao próprio corpo humano, ao pedaço de carne e ao que – como acreditam os crédulos – contém: a alma.

A questão fundamental levantada por Benjamin, em seu ensaio, é análoga: a obra de arte contém, em si, uma espécie de figura singular, composta de elementos espaciais e temporais. É uma percepção dos contextos sociais e políticos da cultura, uma autenticidade escondida em um invólucro: a aura. De modo mais específico, à medida que discorre sobre autenticidade, Benjamin estabelece que mesma a reprodução mais perfeita apresentará falhas por não conter o contexto, um aqui e agora; do mesmo modo é a invenção de Morel ao fugitivo. Não entende porque Faustine não o responde, não observa o jardim feito em sua homenagem. Procura alternativa: edita o acontecimento. É essa a falha de todo o sistema inventado: pode tornar os personagens eternos, fazê-los repetir anos a fio a mesma ação. Entretanto, retira-os de seu contexto, faz com que suas ações sejam embaralhadas por outros tempos e outras condições: os faz dançar na chuva, nadar em uma piscina imunda, sentir frio quando há calor. Abre também para a intervenção de outro, no caso, a do fugitivo que se grava junto aos demais, “um espectador desprevenido poderia julgá-las igualmente apaixonadas e próximas uma da outra” (pág. 124). A técnica, segundo Benjamin, dá ao espectador a possibilidade de atualizar o objeto reproduzido e é exatamente isso que o condenado faz.

Outro ponto de confluência entre os pensadores é quanto à ética romântica burguesa e seu individualismo. Para Benjamin, a cultura passa a ser um mero instrumento de gosto, de afirmação a partir de sua reprodutibilidade técnica. Além disso, desfaz o espaço público, retira as pessoas da aglomeração social e as coloca em isolamento. Não se vai mais ao concerto, ouvem-se os músicos em um quarto, por meio do gramofone, da vitrola ou, contemporaneamente, do Ipod. De modo análogo, Bioy estrutura seu romance a partir de um jogo entre o verdadeiro e falso – do qual se pode destacar, primordialmente, a relação entre o próprio narrador e o editor fictício do relato – e de um profundo descontentamento com as máquinas. De todo modo, elas são responsáveis tanto pela destruição da aura quanto pela destruição dos corpos.  É o corpo que atrairá, para si, a função ritual explicitada no contexto da tradição.  Entretanto, as críticas do argentino não devem se aproximar da crise proposta a partir da invenção da fotografia, quando surge a proposta da arte pela arte, como uma espécie de teologia da arte. Bioy conduz o enredo numa profunda aproximação com o ateísmo, não pela característica de dar a sua arte um contexto de função social, uma espécie de planfeto; mas, no entanto, de uma crítica, de uma determinação subjetiva do contexto em que se insere. O corpo como obra de arte tem seu impacto maior na praga que assola todos os que são gravados pela invenção de Morel: há uma quebra do invólucro, a aura se dispersa – da mesma forma deve fazer a alma e, para tanto, precisa destruir o recipiente anterior para libertar-se e tomar a sua nova forma, ainda que idêntica.

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2 Respostas

  1. Darshany L.

    você continua ótimo!

    janeiro 7, 2010 às 3:28 pm

  2. Virei fã do blog.

    fevereiro 3, 2010 às 12:20 pm

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