O Original de Laura: os manuscritos e os prefácios de Vladimir Nabokov

Tenho O Original de Laura em mãos. Acredito que seja choque de uma ou outra vontade não publicá-lo; se fizeram, porém, procede-se assim mesmo à leitura. É, ainda, muito próximo a tudo o que Vladimir Nabokov já escreveu. As idéias estão em segundo plano; compreende-se primeiro o estilo, um floreio digno de um ou outro discurso policial. Em seguida: a estrutura. De fato, análoga ao argentino Jorge Luis Borges. Há um quê metalingüístico em Laura que ultrapassa, muitas vezes, o próprio jogo hermético construído em Fogo Pálido. Parece que, como se fosse uma fundação arquitetônica, a própria inconclusividade da obra deixa as longas orações subordinadas ainda mais sensíveis, expostas ao leitor como se fosse necessário abarcar em cada período, num fôlego só – tal qual para sentir os soluços de Humbert Humbert em Lolita. O livro não traz, entretanto, um prefácio como as outras duas obras. Há, de fato, um preâmbulo destinado a quem se interessa pelo confronto de interesses póstumos. Acredite: depois de quatro ou cinco linhas, desisti. Segui direto para o próprio texto. Ao contrário, lembro da vez que comprei Lolita em um sebo, por sugestão de uma colega de classe. Obviamente, com alguns anos a menos, acreditei em cada palavra que o tal doutor de Filosofia John Ray Jr. proferia sobre a publicação. Inclusive, devo admitir, pude crer no subtítulo kitsch de A Confissão de Um Viúvo de Cor Branca.

Pouco tempo se passou entre a falsa fé e a realidade. Um ou dois artigos depois, não lembro, já fizeram pensar o contrário: como um escritor pode, de forma tão verossímil, fraudar a própria obra? É uma questão de maturidade compreender todos os nuances que perfazem as narrativas de Nabokov. Esquecer a idéia, um pouco sedutora, é claro, de que as três páginas iniciais daquela edição são uma sutil resposta aos próprios editores, envoltos em propostas de suavização e de remodelação da idade e dos seios de Dolores. Ao contrário, a estratégia se repete pelos livros seguintes. Radicaliza-se em Fogo Pálido: o prefácio é o primeiro capítulo. Desenrola-se a própria trama, quase completamente, por entre aquelas páginas. É uma estrutura, talvez, dispensável; tornando-se, no entanto, uma chave de leitura, indicando pistas, fornecendo ao leitor um papel de investigador no crime que circunda a narração. Ao todo é uma sugestão, não uma imposição. Não se faz grosseira. Como em Lolita, fornece informações desencontradas, amplifica as dúvidas e desfaz a pretensa certeza do funcionamento esquemático de uma garota aos doze anos.

A característica apreensível, sobretudo, nesses prelúdios é a capacidade do autor de construir multiuniversos ficcionais. Em Lolita, de forma mais evidente. A forma com que Nabokov relata as experiências de Humbert, em episódios postos em capítulos numerados, não faz com que as tramas terminem ao início de uma nova marcação. Os personagens e as aparências se confundem, como em um baile de máscaras barroco, abarcando cada vez mais uma teia de significados que mais confundem do que elucidam os crimes. Annabel, o primeiro amor do jovem Humbert, submerge nos delírios infantis de Valéria – sua primeira esposa. Ambos confluem nas atitudes suspeitas de Lolita ou no comportamento anacrônico do júri. Os valores não recebem um enunciador próprio, se embaraçam em discursos: não há um julgamento próprio, mas coletivo. E, pelo caráter múltiplo, incompreensível. Talvez, por isso, seja tão sedutora a leitura de O Original de Laura: não há fim. E isso, pouco importa.

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