Do beijo e do seu acaso: o reencontro e suas músicas em Wong Kar-Wai

Maggie Cheung em Amor à Flor da Pele (2000)

Da primeira vez que eu vi Wong Kar-Wai: estava por trás de uma câmera, um bolero de Nat King Cole. Na verdade, uma pequena música instrumental que aumentava o desconforto e a sensação de perda – uma mulher, em seu vestido e suas padronagens sessentistas , descia uma pequena escada de um concreto corroído em busca de um pouco de macarrão. Encontrava-se com o vizinho; olhavam-se furtivamente e se esqueciam num minuto. A pequena cena de Amor à Flor da Pele (2000), exibida numa sala de aula inundada de pouca luz e muitas palavras trocadas, me fez correr – logo depois – em busca de uma cópia. Não sabia sequer a pronúncia correta; pedi num desalinho, numa pressa necessária à exibição apertada entre uma aula e outra. Seguiu-se a uma série de outros sete filmes. Obras completas, diriam se fosse material da Literatura; convenceram-me logo depois que Kar-Wai não filma, mas escreve com a sua câmera. Guardem segredo: penso até hoje, quando escrevo, que o meu maior desejo é que minhas histórias fossem uma fábula de amor de Wong Kar-Wai. Guardem direito esse segredo. Não revelem a ninguém, não me deixem dar o braço a torcer.

De Nat King Cole para The Mamas And Papas. A primeira reação ao ouvir California Dreaming em Amores Expressos (1994) foi uma risada; creio que foi de incompreensão imediata, de como aquele realizador, perdido numa ilha no meio da Ásia, queria me convencer que estava são ao escolher aquela trilha. Fez pouco depois. Me calou de uma maneira absurda, à maneira daquela personagem. Faye tem poucas falas, mas atinge a sua máxima expressão no filme por intermédio da música. É a chave para compreender uma relação espacial estabelecida na filmografia de Kar-Wai, onde o tempo é capaz de distorcer distâncias físicas – mas não de forma completa e plena; a personagem tem o desejo de conhecer a Califórnia real, a que a música diz, mas só pode fazê-lo consumindo desejos e sensações pré-estabelecidos pelo seu ritmo.

Faye Wong em Amores Expressos (1994)

Creio, às vezes, que minha relação com Kar-Wai é a mesma que seus personagens empreendem. O amor, desde o seu início, tem uma data estabelecida para ter fim, para definhar, para se tornar obsoleto, para ser superado pelo desejo, para virar memória, passado, lembrança e, enfim, esquecimento. Cheguei a acreditar no fim vendo Confronto Mortal (1988). A tradução inconveniente é tão brega quando o tom próprio dos anos 80 que o filme toma. Não gosto de chamá-lo de Confronto Mortal, deixe-me colocá-lo como As Tears Go By.  Ali, no primeiro filme, ele era aquele realizador da Nova Onda de Hong-Kong, com aquele cinema de gêneros, com um mau-gosto distribuído por entre diversas cenas e cenas; salvavam-se algumsa, de maneira tão sóbria, tão bela, que quase salvavam o filme. Quase. Faltava algo, essa idéia da câmera que não filma, mas que escreve. Não sei bem cantonês, mas sei que aquela música que se iniciava era Take My Breath Away, tão descartável e vergonhosa que nem me dou o trabalho de pesquisar o intérprete. Um Pager apita, uma mocinha corre atrás do ônibus em busca de um reencontro. Se perde nos minutos essenciais. Chega atrasada. Surge ele, firme, e puxa ela pelo braço até uma cabine telefônica. Se encontram e se olham. Vem o beijo: meio daqueles repletos de ódio, meio daqueles próprios do amor.

Maggie Cheung e Andy Lau em As Tears Go By (1988)

A música: um delírio pop tão descartável quanto o amor que sentiam um pelo outro.

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2 Respostas

  1. Bem Daniel, esse seu post me fez pensar numa coisa. Será que com esse crescimento das economias orientais e com a decadencia de certos setores da industria cultural Norte-Americana (cinema incluso), será Honk-Kong uma nova hollywood no futuro?

    Informação inutil: Take my Breath Away e de um grupo denominado Berlin.

    abril 3, 2010 às 12:16 pm

  2. A única coisa q conheço de cinema oriental é oldboy… vou tentar me informar mais e assitir esses filmes

    abril 14, 2010 às 10:45 pm

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